domingo, 17 de novembro de 2013

Anamórfico, 16:9 ou 2,35:1 ? A confusão entre os formatos de tela widescreen...


Breve histórico dos formatos de cinema e TV

Com a introdução da tecnologia HD em câmeras de custo mais acessível a partir dos anos 2000 e a popularização do formato, culminando com a implantação da TV digital HD, em seu formato widescreen, inclusive no Brasil, a predominância das telas largas, sobre os antigos monitores CRT em formato 4:3, trouxe também uma mudança nos padrões estéticos de captação e produção de conteúdo para TV e cinema.
Mas afinal de contas existe um padrão para a chamada imagem em tela larga? E esse padrão seria um frame de imagem com a proporção de 16:9, tradicionalmente ligada as câmeras HD em 1920 x 1080 pixel? Ou o Padrão seria o formato 2.35:1 tradicional dos filmes em película como o Cinemascope? E agora, com o lançamento e popularização das câmeras 2K como a RedOne, Sony F700, F5, F55 ou as novas BlackMagic Cinema Camera e Production Camera,  com seu formato de 2430 x 1360 pixel aproximando-se do convencional 16:9 para o chamado cinema digital?
Para colocar mais lenha nessa fogueira, muitos cineastas, com baixos orçamentos ou vontade de experimentar, têm ressuscitado as velhas lentes anamórficas como forma de expressão de suas ideias cinematográficas. E as lentes anamórficas chegam a ter uma relação de aspecto de 3.5:1, ou seja, quase o dobro da largura do formato 16:9 (onde teríamos em teoria um formato 31:9).


O formato Cinemascope e as lentes anamórficas

Lentes anamórficas de qualidade podem custar mais de R$ 100 mil reais cada!

Até meados da década de 1950 o formato 4:3 ou 1.375:1 (Academy Ratio) foi usado na maioria das produções cinematográficas. O meio de captação era o negativo de 35mm. Mas com o lançamento do formato Cinemascope (1953) com sua tela larga, na proporção de 2,35:1, houve uma tendência a se adotar um padrão que fosse visualmente análogo ao Cinemascope, porém sem os altos custos de produção deste último.  A partir de então a maioria dos filmes em película 35mm foram captados no formato 1.85:1 que se tornou o novo Academy Ratio.
Para aumentar a largura do quadro captado pelas câmeras tradicionais de película e a consequente exibição em telas de cinema com o dobro da largura normal, mas sem aumentar os custos de produção, envolvendo troca de equipamentos, uso de filmes especiais (como os de 70mm) e de lentes dedicadas, o Cinemascope adotou o uso da mesma película 35mm.  Com o uso de lentes anamórficas, que “comprimiam” a imagem na largura, um campo visual maior podia ser captado na mesma largura do negativo tradicional.  Posteriormente, na exibição, o uso das mesmas lentes anamórficas, nos projetores das salas de cinema, descompactavam a imagem, criando uma janela de exibição com o formato 2.35:1 (bem mais largo que o formato Academy Ratio 1.85:1tradicional). E são exatamente essas lentes que alguns diretores de fotografia vem experimentando para uso com câmeras digitais.

Para os amantes da cinematografia experimental, felizmente existem modelos de lentes anamórficas como a Sankor 16C que podem ser adaptados a lentes comuns com qualidade razoável de imagem. Mas não espere jamais o desempenho de uma lente profissional. Esse tipo de lente pode ser encontrada no mercado de equipamentos usados por preços variando entre R$ 1 mil a R$ 3 mil reais, dependendo do estado de conservação e acessórios inclusos. 

Assim como os televisores, inventados na década de 1920 seguiram o padrão Academy Ratio de 4:3 que perdurou nos monitores CRT até a popularização dos monitores LCD, que no entanto ainda foram produzidos em larga escala no padrão 4:3, os monitores de televisão no formato widescreen acompanharam o formato 16:9 (ou 1.85:1) da maioria das produções cinematográficas e os filme originalmente produzidos para a tela de cinema não precisaram mais ser “cortados” nas laterais, para caber nos monitores 4:3 ou serem exibidos com as duas faixas pretas em cima e em baixo da imagem, quando apresentados em seu formato original. Exceção feita aos filmes produzidos em Cinemascope que, mesmo em monitores widescreen, ainda necessitam das barras superior e inferior para serem apresentados na relação de aspecto original.

O formato de vídeo HD

Quando, em meados da década de 1990, começaram a surgir as primeiras iniciativas para a criação de uma televisão digital em alta definição que pudesse substituir o antigo padrão de televisão analógico em baixa definição, em uma escala global, o natural foi pensar na experiência do telespectador quando este ia ao cinema. A ideia era que a nova tecnologia pudesse dar a experiência da sala do cinema, no conforto da sala de nossas casas, tanto em imagem quanto em som. E que o custo de adaptação dos filmes para o formato de vídeo doméstico fosse reduzido. Então o formato widescreen se tornou o padrão.
Mas tanto os canais de televisão aberta, quanto os canais a cabo, não exibiam apenas filmes. Havia também os programas de auditório, noticiários e documentários. E estes precisavam ser captados e produzidos também em alta definição. Dessa forma todas as novas câmeras, dos modelos mais caros para as grandes redes de televisão, aos modelos mais baratos, para produtores independentes, adotaram o formato widescreen 16:9, geralmente com resolução de 1920 x 1080 pixel, como padrão.

A revolução digital da TV para o cinema

A partir dos anos de 1990, com a melhoria da qualidade dos primeiros formatos digitais de câmeras de vídeo, alguns cineastas, buscando novas formas de expressão estética, começaram a produzir para cinema, usando câmeras de vídeo para televisão. Essas experiências precursoras explodiram, a partir de 2005, com o lançamento da primeira câmera de vídeo, de altíssima definição, voltada especificamente para a produção de cinema: a REDONE.
Embora outros fabricantes como a Sony, com a linha CineAlta, e a Arry, tradicional fabricante de câmeras de película para o cinema, estivessem trilhando o mesmo caminho, o preço relativamente baixo e a simplicidade das câmeras RED tomaram o mercado, tradicionalmente ocupado por produções de cinema em película, de tal forma, que hoje quase a totalidade das novas produções estão sendo rodadas em formato digital 2K e, em algumas poucas iniciativas, em formato 4K.

Diferentes equipamentos, diferentes lentes e vários tamanhos de quadro...

Mas afinal de contas existe um padrão para os atuais filmes produzidos com equipamentos digitais para apresentação em salas de cinema? E como ficam as diversas resoluções das câmeras de alta definição?  Para citarmos alguns modelos mais conhecidos, podemos montar a seguinte tabela de formatos 2K:

Fabricante
Modelo
Tamanho do Quadro (pixel) (L) x (A)
Blackmagic Design
BM Cinema Camera
2432 x 1366
Blackmagic Design
BM Production Camera
3840 x 2160 (*)
Sony
F5, F55 (c/ AXS-R5 RAW)
2048 x 1080
Sony
FS700 (c/ gravador AXS-R5 RAW)
2048 x 1080
RED
Red One
2040 x 1024
ALEXA
Arry
2880 x 1620
EOS C500
Canon
2048 x 1080
(*) Não oferece 2K nativo, somente 4K

Como pode ser visto na tabela acima, cada fabricante/modelo conta com um tamanho de quadro próprio, não existindo entre os fabricantes de equipamentos uma padronização exata para definir o formato 2K (o mesmo acontecendo com o formato 4K). Mas o consórcio mundial de exibidores - DCI ou Digital Cinema Initiative – acabou padronizando, a partir de 2005 os formatos para exibição, para salas de cinema digital, na proporção de 1.89:1 que seguiu, com pouquíssima diferença,  o padrão Academy Ratio original  para filmes em película que era de 1.85:1. E os fabricantes de projetores, como a Barco e a Sony, também seguiram essas especificações. Então, quanto ao formato de exibição, temos:

Formato
Tamanho de Quadro
2K
2048x1080 (1.85:1)
4K
4096x2160 (1.85:1)
2K (Scope)
2048×858 (2.39:1)
4K (Scope)
4096×1716 (2.39:1)

A diferença no formatos normais 2K ou 4K para os formatos em Scope serve para acomodar a exibição de produções captadas originalmente em película, usando os formatos Panavision, Cinemascope ou mesmo negativos 70 mm, bem como produções captadas em câmeras digitais porém usando lentes anamórficas ( 2X, 3,5X, etc).

Abaixo temos alguns exemplos de formatos de captura e exibição citados nesse texto. Para efeito de comparação foram respeitadas as escalas de tamanho e proporção:

Fotograma 70 mm original do filme “Baraka” (Ron Fricke – 1992 – EUA)
Captado com câmera 70mm Todd-AO – lentes Super Wide 12,5 mm



Exemplo da mesma cena captada com câmera tradicional de película 35 mm no formato Academy Ratio 1.85:1 com lentes normais:


Caso fosse captada com lentes anamórficas 2X (2.35:1) em película 35mm:


Frame de vídeo HD 1920 x 1080 captado com Canon 5DMKII e lentes 135mm:


Frame de vídeo HD 1920 x 1080 captado com Canon 5DMKII, lentes 135mm mais lente anamórfica Sankor 16C (3,5X) sem correção de aspecto:


Mesmo frame após correção de aspecto no Premiere CS6 para o formato HD 1920 x 1080:



Exemplo de frame capturado com uma Blackmagic Cinema Camera @ 2K e o formato final de exibição padronizado pela DCI para Cinema Digital 2K. Fica a critério do diretor cortar a imagem excedente, com novo enquadramento, ou executar o downscaling para o tamanho padronizado, aproveitando todo o quadro capturado.

Esse artigo é um breve resumo de alguns aspectos dos formatos de vídeo e cinema convencional e digital. Para se aprofundar mais no assunto sugerimos leituras específicas disponíveis na web, sobre cada um dos temas abordados.

Grande abraço a todos!

Marcelo Ruiz

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