12/08/2017

Fazer artístico e saber tecnológico devem andar juntos!



"Techne" é um termo derivado etmologicamente da palvra greaga τέχνη (grego antigo: [tékʰnɛː], Grego moderno: [ˈtexni]), que é genericamente traduzido como artesanato, trabalho artesanal ou arte. Embora o pesquisador Larry Shiner, no seu livro “A invenção da Arte” argumente que techne não possa ser simplesmente traduzida como arte e nem como produto artesanal, porque a arte da técnica e o produto dessa tecnologia são socialmente construídos de acordo com o período da história humana onde são inventados. Para os gregos da antiguidade, a palavra significava todas as artes construtivas de objetos, bem como a medicina e a música.  

Então levando essa definição para nossa atividade audiovisual, a arte de fazer cinema e vídeo deve passar pelo caminho da inspiração genuína da expressão artística da vontade do intelecto,
bem como deve ser suportada pela força auxiliadora do conhecimento do fazer (a techne) que vem através da habilidade manual construtiva.  Quando eu publiquei as fotos da minha Frankie câmera em um grupo americano no Facebook, eu recebi elogios, mas também fui alvo de piadas (não ofensivas) e críticas pela aparência do rig que eu montei. Sem problemas. Gosto da crítica construtiva, pois ela me ajuda a melhorar e aperfeiçoar minha ideia original e meu conhecimento sobre o assunto.


Mas o que fica claro pra quem entra nesses grupos, é que pela facilidade da compra de equipamentos de ponta de grandes marcas e por preços justos, está menos interessado em conhecer a fundo o produto ou disposto a pensar em modificá-los para atender demandas específicas. Simplesmente porque eles sabem que por lá o mercado é bastante competitivo e milhares de empresas se dedicam a projetar e vender adaptadores de diversos tipos para melhorar o desempenho de sistemas de captação de imagem. E eles não conseguem entender, quando eu falo das nossas dificuldades no Brasil, as coisas malucas que acontecem aqui, como falta de fábricas nacionais de produtos para cine e vídeo, os preços abusivos (eles esquecem que tem moeda forte e nem fazem idéia do valor do câmbio para moedas menos importantes como o Real).

Mesmo nesses países, existem determinados jobs, que necessitam de alguma adaptação dos equipamentos. É muito comum nos EUA e Europa, haverem artesãos que vivem só dessas adaptações especiais. Foi o caso dos adaptadores para conectar lentes de uma marca em corpos de outras câmeras, os sistemas de suporte para as DSLR e os periféricos, sistemas de alimentação de energia mais robustos.

Por outro lado, aqui no Brasil, apesar da carência de equipamentos em variedade e  valor acessível, da falta de fornecedores oficiais locais e de oficinas autorizadas, ainda não temos o hábito de estudar a parte técnica e pesquisar ou inventar novas soluções. Gosto muito de citar o exemplo de dois grandes cineastas. O Kubrick, que se envolvia pessoalmente na modificação das lentes que usava e das filmadoras de película. E outro cara importante é o George Lucas, que constantemente dialoga com fabricantes de equipamentos, propondo ideias para que estes construam equipamentos quase exclusivos para suas necessidades. Um exemplo disso são as câmeras atuais de cinema e os projetores de salas de exibição. Esse mercado passou a vida toda amarrado no formato de 24 frames por segundo. Aí o George Lucas começa a provocar discussões com fabricantes e exibidores de filmes para introduzir a velocidade de 48 e 60 frames por segundo. E hoje vemos isso em qualquer filmadora de qualidade, Mesmo as de baixo custo.

No caso dos equipamentos que desenvolvi e estou tentando lançar no mercado, o que me motivou foi, além do preço exorbitante de certos itens, a vontade de aperfeiçoar, de preencher lacunas e melhorar o desempenho. Nas imagens desse post, mostro as etapas de fabricação de um componente simples para modificar o tamanho de um grampo “C” usado nos rigs para  segurar uma alça de mão e também para prender alguns modelos de matebox (para-sol). Eu ainda não estava satisfeito com altura do conjunto e especialmente da alça de mão superior. O problema é que essas peças “C” tem uma medida padronizada. E eu queria encurtar cerca de 10 centímetros.


É aí que entrou o conceito que expliquei no início desse post. Não basta apenas conhecer a técnica da arte cinematográfica ou da fotografia. Não basta conhecer bem o funcionamento e a capacidade do equipamento. É preciso conhecer um pouco da técnica de fabrico desses componentes ou mesmo aprender algumas habilidades na área de eletrônica, mecânica e também as habilidades no uso de ferramentas especiais. No caso desse grampo, eu fiz uma peça de união 10 cm menor para diminuir o tamanho do arco. E daí sim, fiquei satisfeito com a altura total do conjunto e a posição e altura da alça de mão. Aproveitei uma peça de alumínio que sobrou de um suporte de câmera de um rig velho, cortei um pedaço de 5 x 1,5 cm, fiz a furação, abri as roscas necessárias e pronto! Meu novo grampo "C"estava pronto na medida que eu precisava! 

E querem saber? Mesmo que eu pudesse comprar, por exemplo, várias unidades de uma bateria Anton Bauer de grande capacidade e a plate de suporte, dessas que já estão vindo com diversas saídas em voltagens diferentes, eu não teria ficando tão contente com esses itens que eu acabei desenvolvendo. Primeiro porque você olha depois de pronto, vê funcionando de forma até melhor que o produto de marca importado  e sente um baita orgulho de ter feito aquilo. Além de saber que seu equipamento é único mais ninguém tem. E mesmo tendo êxito em lançar comercialmente, você saberá que fez algo especial de qualidade e com ais utilidade.


Outra questão é que você se sente mais seguro. Como aqui no Brasil quase não temos assistência técnica, e quando elas existem demoram meses para consertar um produto, com o equipamento que você projetou e construiu você tem mais confiança, pois sabe o que tem dentro e que fez aquilo para não falhar. E mesmo que um componente falhe, você saberá reparar e em um tempo muito menor. Resultado é que você não fica na mão de ninguém. E tem a questão da sustentabilidade. Geralmente certos equipamentos, como baterias, tem uma vida útil programada de fábrica. E depois você tem que simplesmente descartar no meio ambiente e investir na compra de outro novo.
 
A bateria da esquerda eu posso abrir e reparar, caso seja necessário. Eu mesmo fabriquei. A da direita, de ótima marca, não tem conserto se parar de funcionar. Mesmo que eu abra e descubra o defeito, não terei peças para consertar. 




Gosto muito de usar o exemplo de baterias de laptop e de câmeras digitais. São caras e depois de um certo número de cargas e descargas elas simplesmente morre. O que ninguém sabe é que elas podem ser recuperadas na maioria dos casos. Se você abrir uma bateria de notebook que não está mais pegando carga (desde que você saiba o que está fazendo) verá que internamente são formadas por um conjunto de 8 ou 12 células. Se medir a voltagem de cada uma, vai perceber que apenas uma ou duas estão realmente com problema. E se forem substituídas, as demais voltam a funcionar. Então com uma quantia que pode chegar a 10% de uma bateria nova, você pode recuperar a bateria original.

E aí tome lixo tóxico e perigoso ao meio ambiente, além, é claro, de um prejuízo na conta bancária. Aprender a techne para além do fazer da arte, nos torna capazes de melhorar o que não veio do jeito que necessitávamos, ajuda a preservar o meio ambiente pela reciclagem de materiais que serão usados para construir novos equipamentos ou complementos, ajuda na despoluição do meio ambiente e a caminharmos para uma sociedade mais sustentável.


Grande abraço!

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Marcelo Ruiz