sexta-feira, 22 de julho de 2011

É o fim da era Apple/Fine Cut Pro no cenário da edição de vídeo não linear?


Mesmo sob pena de causar a ira dos Mac’maníacos, vou correr o risco de escrever esse artigo. Meu conselho, para quem ainda acha que os Mac’s reinam supremos na edição de vídeo, seria: analise bem as tendências de mercado e se informe bastante nos meios especializados antes de trocar seu velho Mac Pro por um novo equipamento de edição não-linear.

Sei como os Mac’guerreiros são empedernidos quando se trata de discutir o tema.  Os seguidores fiéis da marca quase nunca aceitam argumentos de não iniciados. Mas vamos tentar, ao longo desse artigo, analisar de maneira isenta e sempre citando as fontes, os argumentos em jogo.

Os sinais de fumaça já andam sendo mostrados no alto das montanhas do Vale do Silício. Os primeiros sinais apareceram em 2006 quando os MacPro e iMac começaram a ser vendidos com processadores Intel Core Duo. Alguns meses depois a empresa da maça lançava o Bootcamp, que permitia a usuários do sistema OsX instalar o Windows em seus computadores.

Agora, em 2011, novamente nuvens de fumaça branca se levantam do QG da Apple para anunciar o fim do suporte aos processadores PowerPC.   Com o lançamento do OsX Lion torna-se necessário ter, no mínimo, um processador Intel instalado no computador.

Também há sinais de mudanças no lançamento da nova versão do Final Cut. O sistema que agora é chamado de Final Cut X esta levantando rumores, no mercado profissional de edição de vídeos, tão variados como especulações de que a empresa de Steve Jobs estaria abandonando o segmento profissional de edição[1] ou que, na verdade, trata-se de uma radical inovação no modo de editar vídeos em sistemas não-lineares[2].

Arrisco aqui uma opinião diversa que engloba as outras duas em uma terceira via. Tal como aconteceu com seu hardware, a Apple talvez esteja querendo se aproximar do senso comum. Assim como a Avid lançou recentemente a nova versão do Media Composer, finalmente permitindo, de maneira mais prática e funcional, sua instalação e funcionamento plenos em equipamentos não-proprietários e não necessariamente fabricados por parceiros homologados.

Talvez a Apple esteja mirando o mercado de varejo, dos pequenos empresários do setor de vídeo e tv, que optam por construir seus próprios sistemas de ENL[3]. Acho que, daqui por diante, não seria surpresa vermos, no futuro, uma versão do Final Cut X para Windows. Por outro lado, a Apple afirma que a nova versão de seu software de edição ainda não está madura o suficiente para o mercado profissional e que novas implementações estarão disponíveis brevemente.
Com a redução do preço inicial de aquisição do programa tendo baixado mais de 30% em relação a versão anterior, embora desprovida de várias funcionalidades, que devem ser adquiridas a parte nas Apple Stores, a empresa quer claramente competir com a Adobe e Avid, que também reduziram os preços de seus produtos  desse segmento.

Eu tenho comentado aqui no blog em alguns vídeos, sobre a crescente vantagem dos sistemas NLE baseados em PC Windows sobre o Final Cut Pro. Uma dessas vantagens foi o Mercury Play Back Engine, que deixou de fora os Macbook Pro e MacPro, que utilizam placas de vídeo ATI.  A Nvidia contra atacou lançando a Quadro 4000 em versão especial para Mac Pro, pois um crescente número de usuários estava optando por usar a versão do Premiere CS5 para o sistema operacional OsX.

Meio refém de acordos comerciais com a ATI, que inclusive teve diversos profissionais de TI mudando-se para as fileiras de Steve Jobs, a Apple contra-atacou essa desvantagem com as novas funcionalidades do Final Cut X que incluem a arquitetura de 64 bits, permitindo ao aplicativo reconhecer mais de 4 Gb de RAM e a implementação de um render inteligente, que trabalha quieto em segundo plano, usando a CPU e a GPU para acelerar as tarefas.

Isso reforça mais a idéia de uma futura versão do Final Cut para PC’s Windows talvez baseados em aceleração de render com placas da ATI. A empresa viu, desde o lançamento do Premiere CS5, uma migração de consumidores de placas hight-end para os produtos  NVidia Cuda Active. Talvez agora seja a hora do troco. É esperar para ver.

Mas meu leitor deve, a esta altura, estar confuso em relação ao título desse artigo, pois até agora tudo que escrevi aponta para um ganho de desempenho do produto da Apple. Mas vamos então clarear as coisas. Tudo o que foi dito até agora, aponta para uma retomada de vantagens da Apple sobre os concorrentes, retomando a posição de superioridade que ela sempre desfrutou.

Isso também significa claramente que nos últimos dois ou três anos os produtos baseados em Windows PC para o mercado de vídeo profissional se tornaram maduros  e incorporaram significativos avanços tecnológicos. Isso levou o mercado a um empate técnico. Se antes, os computadores Mac com Final Cut Pro reinavam confortavelmente no segmento dominado historicamente pela Avid, as duas empresas viram uma brande fatia desse mercado ser abocanhada por sistemas e equipamentos de outros fabricantes e desenvolvedores.

A crise global de 2008, o crescimento da participação de pequenas produtoras no, antes quase inacessível, mercado de produção profissional de vídeos em alta definição, proporcionado pelos lançamentos de produtos com preços acessíveis pelas quatro grandes marcas do setor, principalmente na área de aquisição de imagens, forçaram esse mesmo mercado consumidor a buscar e solicitar soluções de baixo custo para seus departamentos de edição e finalização de conteúdos.

Da dependência quase total de sistemas NLE fechados e proprietários até a metade da década atual, passamos para a liberdade de escolher, configurar e adquirir esses equipamentos em partes distintas e de fabricantes diferentes.  Hoje, um técnico de computadores e sistemas com conhecimento mediano já é capaz de montar sistemas bons o suficiente para ENL.

É claro que sistemas mais avançados, que possam competir em pé de igualdade com equipamentos hight-end, ainda necessitam de um conhecimento mais apurado para atingirem performance máxima. Mas a disponibilidade de tecnologia de ponta acessível a baixo custo trouxe liberdade aos pequenos e médios empreendedores do setor.

Sendo assim, voltamos ao foco do artigo, com o seguinte questionamento: vale a pena se pagar milhares de reais a mais por produtos Apple, HP, Dell, Avid e outros fabricantes e integradores de workstations NLE para, no final, termos um ganho de eficiência que não ultrapassa os 5 ou 10%? Sobre esse tema, sugiro a leitura de algumas conclusões do pessoal do site PPBM5[4], que se dedica a testar e avaliar computadores rodando Adobe Premiere Pro globalmente em um interessante artigo intitulado Background on the new test results, que poderia ser traduzido livremente por “Conclusões sobre os novos resultados dos testes”.

Nesse artigo, os responseveis pelo site deixam claro que, gastando milhares do dólares em um sistema NLE, é relativamente fácil conseguir desempenho. Mas que, tomando como princípio a necessidade de se manter o custo de aquisição baixo, para possibilitar o retorno do investimento, os melhores sistemas não são, necessariamente, os mais caros.

E que o ganho de desempenho entre a máquina mais cara e a mediana é tão pouco , que não justifica o montante investido e não se paga, levando em conta a vida útil do equipamento. E esse ponto é muito importante e deve ser levado em consideração na hora da escolha do equipamento.

Não estou absolutamente desqualificando os equipamentos dos fabricantes citados. Todos eles são o que há de melhor na categoria. Porém, o pequeno e médio empresário do nosso setor, deve tomar cuidado na escolha. Os principais pontos a levar em conta são:

·      Custo inicial de aquisição;
·      Vida útil efetiva do equipamento;
·      Possibilidade de agregar novas tecnologias;
·      Dependência de peças de manutenção exclusivas;
·      Facilidade de assistência técnica;
·      Tempo de espera em caso de manutenção.

O custo inicial de aquisição é importante porque determinará seu lucro com o equipamento. Tendo a vida útil limitada, nem tanto pela durabilidade, mas preponderantemente pela desatualização extremamente rápida da tecnologia, uma NLE com custo inicial elevado pode não se pagar até precisar ser aposentada. E isso é prejuízo na certa.

Se a vida útil é determinada mais pelo avanço da tecnologia, do que pela durabilidade dos componentes, é necessário que o sistema possa ter possibilidades de upgrades futuros a custo baixo e tempo de parada mínimo.
Deve ser também flexível o bastante para acomodar tecnologias novas de diferentes fabricantes.

Sistemas fechados ou de fabricantes com características especiais tendem a usar componentes internos fabricados especialmente para eles. Em caso de quebra de um desses componentes, o tempo de reposição, mesmo contando quase sempre com uma garantia abrangente e eficiente, pode demorar mais que o suportável em uma pequena empresa, que não tem equipamentos iguais de reserva.

Também a facilidade de acionamento e o tempo de solução do problema por parte dos profissionais da assistência técnica deve ser levado em consideração. Não é raro encontrarmos casos em que o equipamento tem que ser enviado para outro país para solucionar um defeito. Ou a assistência técnica, apesar do atendimento rápido e interessado, ter que aguardar meses pelo envio de um componente a partir de sua matriz no exterior.

Em todos esses casos é mais conveniente ter um sistema NLE montado com componentes de mercado, que podem ser encontrados com certa facilidade e bom preço em um bom fornecedor de hardware em sua cidade ou com site de compras online. E isso não significa abrir mão da qualidade ou da eficiência. É tudo uma questão de escolher o hardware correto e a configuração precisa e especializada para as tarefas a serem desempenhadas pelo equipamento.

Cada vez mais os empreendedores do segmento de vídeo produção tem estado atentos a essa questão dos custos. E muitos estão abandonando os sistemas proprietários ou muito exclusivos na hora da substituição de suas estações de trabalho ENL. Exatamente por isso vemos um grande movimento no mercado de soluções de hardware e software no sentido da universalização do uso de tecnologias e componentes.

É o caso da Apple ao adotar processadores Intel, da Intel ao lançar tecnologias como a nova interface de comunicação Thunderbolt[5] que, lançada com um breve período de exclusividade pela Apple, estará brevemente em computadores PC, desenvolvedores de sistemas e softwares como Adobe, Avid, Blackmagic e outros que se preocupam em fornecer sempre opções para Mac e Windows  em seus lançamentos. Então se você se preocupa com coisas como lucro e custos deve pensar e pesquisar bastante antes de fazer suas escolhas se baseando apenas em nomes e marcas.




[1] http://www.tvtechnology.com/article/122670
[2] http://library.creativecow.net/adcock_gary/FCPX/1
[3] Edição Não Linear
[4] http://ppbm5.com/News.html
[5] http://en.wikipedia.org/wiki/Thunderbolt_(interface)

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Marcelo Ruiz

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