quarta-feira, 7 de março de 2012

Resposta ao Lucino Santana


Um dos mais ativos seguidores aqui do blog, o nosso colega Lucino Santana, proprietário de uma produtora no interior da Bahia, enviou o primeiro comentário sobre o texto “Os novos desafios da produção de vídeo no Brasil”.
Gostei tanto dos questionamentos e considerações que resolvi publicar a resposta como um novo post. Para dar coerência as respostas vou citar os trechos do comentário dele com fonte itálica. E desde já agradeço e parabenizo a você, Lucino, por estar sempre antenado no blog e pelos comentários sempre interessantes e pertinentes.

O Lucino começou levantando a preocupação com a mudança:

 “Achei um pouco incoerente com nossa realidade atual o fato de você aconselhar aos colegas que se especializem em determinado setor do seguimento, isso não condiz, pelo menos ainda não. E eles podem até passar necessidades se tentarem.”



Sua percepção está corretíssima Lucino, mas lembre-se de que eu falei que o processo de mudança deve ser bem estudado e “... também deve levar em consideração outros fatores como potencial do mercado local, expertise principal dos integrantes da equipe e a própria percepção dos clientes...” pois quando se caminha para esse tipo de ajuste ou mudança de rumo, não adianta jogar o barco nas pedras para fugir da tempestade.

O que eu tentei passar para os nossos leitores é muito mais uma percepção, uma intuição baseada na interpretação pessoal de certos sinais. Mas eu também posso errar feio, afinal não tenho bola de cristal. Penso que é certo se evitar mudanças que coloquem em risco o que já construímos, mas também aprendi, com muitos anos de tentativas de administrar negócios, em tempos que o Brasil era muito mais imprevisível e instável, que o tempo virá rápido e a tempestade aparece do nada.

Acho que o principal, no texto, é nos fazer refletir o presente e tentar enxergar um pouco mais adiante, para estar preparado.  As mudanças acontecerão. Com toda certeza. Se daqui a dois, três ou cinco anos, não podemos afirmar. Sei apenas que elas acontecem cada vez mais rápido.  Quando você falou:

“Você mesmo é um "raro" exemplo disso. Pelo que já vi, você é extremamente multifacetado, sensível as mínimas nuances em produção de vídeo. Crítico ferrenho de obras mal feitas, e na sua produtora, com seus sócios você deve fazer de tudo, certo? ou não?”

Acabou acertando em parte. Realmente eu até faço troça comigo mesmo, me chamando de Professor Pardal.  Mas isso na verdade é muito ruim. Você acaba se interessando por muita coisa, tenta fazer muita coisa e acaba perdendo o foco na hora mais necessária. A autocrítica é forte sim aqui na produtora. Se nos leva a tentar fazer sempre o melhor, também nos impediu muitas vezes de fazer o possível e até mesmo o medíocre que o cliente queria, por puro idealismo. E isso não enche barriga.  No início tentamos mesmo abraçar o mundo com as pernas, foi uma loucura. Agora já estamos bem mais seletivos e buscando esse nicho de mercado que eu comentei no texto. Está sendo problemático? Está fazendo cair o faturamento que já estava ruim? Sim. Absolutamente. Mas preferimos isso do que continuar na “vidinha besta” como diz na gíria.

Mas apesar de no início termos tentado abrir muitas frentes, algumas coisas nuca fizemos por ideologia. E nunca faremos. Cito algumas. A primeira é fácil: cartelas. A segunda é campanha política. Entenda bem, não estou criticando e nem condenando quem faça. Cada um tem livre arbítrio e o meu me impede de entrar naquelas maracutaias de campanha política.  Outra coisa absoluta é a corrupção. Entrar em esquema para ganhar licitação (algo quase de praxe aqui na capital), oferecer vantagens para o licitante ou entrar em concorrência com preço desleal só para depois fazer mal feito. Isso nunca fiz e prefiro fechar a produtora e ir vender picolé na praia, se não houver outro jeito. E jeito sempre há. Esse blog existe por isso. Para ajudar, para denunciar, para tentar mudar alguma coisa. E aí você me perguntou:

“... se alguém for te contratar por um valor razoável pra filmar festinha de de cachorro você dispensará?”

Foi como disse antes, no passado teria pego o trabalho sim. Não há nenhum problema em filmar a festinha do Totó. É um evento social como outro qualquer. E profissional é profissional. Mas hoje não pegaria nem o cliente me pagando o “tal valor razoável”. Indicaria um colega, uma empresa parceira que fizesse esse tipo de trabalho. 

É exatamente o sentido principal da segunda parte do post. Filmar casamento, festa de gente ou de bicho exige uma expertise, uma especialização. Tem os macetes que só quem é do ramo conhece. Então para que vou ser fominha de pegar um trabalho que não conheço só para lucrar? Vou entregar um produto  com pouca qualidade, deixar de fazer um trabalho que eu já tenha prática e com isso no final a soma dá zero. Não vai nem para a frente, nem para trás.

E pode ter certeza Lucino, que não é só você que:

“As vezes fico 60 dias parado, e quase enlouqueço, e quando olho minha prole crescendo, penso que não posso deixa-la passar por algumas mazelas que eu tiver que passar (graças a Deus!)”

Nós aqui também. E todo os colegas Brasil a fora, principalmente nas pequenas produtoras. Os colegas daqui, que fazem eventos sociais, reclamam que além da diminuição dos pedidos de filmagem, sofrem também com os fotógrafos que passaram a oferecer a filmagem quase de graça para ganharem o cliente. As produtoras de comerciais para televisão e vídeos corporativos, mais acentuadamente as pequenas e médias, reclamam da invasão do mercado pelas produtoras de eventos sociais, que também praticam preços desleais.

E reclamam também das agências de publicidade, que colocam estagiários para fazerem cartelas por preços irrisórios e que priorizam sempre determinadas produtoras para fazerem os comerciais mais caros. Eu mostrei claramente como é esse mercado no texto sobre a publicidade oficial do governo.

Mas o que fazemos a respeito disso? Quantas pessoas lêem meus textos? Quantas se calam? Quantas, com você, me respondem para acrescentar opiniões? A televisão brasileira fez 60 anos e ainda não temos um sindicato da classe. Os empregados tem e lutam por seus direitos. Fazem cumprir a lei dos radialistas. As agências de propaganda tem uma lei regulamentadora desde 1965 e mais o CONAR. E nós? Nunca conseguimos criar um sindicato patronal. Em nosso meio é um querendo puxar o tapete do outro. Quantos blogs iguais ao nosso tem no Brasil?  Quem se dispõe a repartir conhecimento? Pelo contrário, nossa classe vide de esconder o jogo uns dos outros.

E quando você diz achar:

“...utópico também, sua esperança que com a regulamentação da nova lei da Ancine, [e que] as "GRANDES" produtoras vão encontrar uma maneira de burlar a lei. [e que] vai ser um verdadeiro festival de "produtorazinhas laranjas "perpetuando a máfia que já é vigente...”

Você talvez esteja certo, pois provavelmente é isso que vai acontecer. Mas somente se deixarmos. Se nos acomodarmos e continuarmos a enfiar a cabeça na terra como o avestruz. Ai vai chegar um gringo qualquer e vai dar um chute no nosso traseiro, como fez o funcionariozinho medíocre da FIFA. Se dizem que o brasileiro tem complexo de vira-lata, infelizmente eu acho que nossa categoria já passou do nível do complexo. O caso é mais grave. Estamos já latindo para a lua e tentando morder pneu de  carro. Nos convencemos que somos os próprios vira-latas.

E para finalizar esse post, faço minhas as suas palavras finais no comentário:

“Não devemos baixar a cabeça é claro, mas, não vejo tantas flores assim para nós.
Talvez eu esteja estupidamente errado, TOMARA!!!”

Super texto o seu Lucino!

Grande abraço a todos!

Marcelo Ruiz

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