sábado, 10 de março de 2012

Os novos desafios da produção de vídeo no Brasil: uma trilogia. (parte 3)



Nessa série de três artigos vamos discutir os novos desafios para as pequenas e médias produtoras independentes de conteúdo. Uma categoria, agora definida por lei, que por enquanto não saiu do papel, mas que pode representar uma esperança para milhares de pequenos empreendedores em todo Brasil, que há décadas lutam por sobreviver em um mercado marcado por contrastes e desigualdades.

Para facilitar a leitura, optamos por dividir o texto em três partes. Na primeira parte foi apresentado um pouco da história e das condições atuais da categoria.  A segunda parte tratou das mudanças no cenário da produção de conteúdo independente, publicidade para televisão, produção para cinema e o impacto e desafios para as produtoras de conteúdo . Nessa terceira e última parte vamos falar sobre as novas tecnologias disponíveis e sua importância para a sobrevivência das pequenas e médias produtoras.

Equipamentos...  sempre os equipamentos... Mas o principal deles é nosso olhar e depois a câmera.

Nos dois primeiros posts dessa série falamos sobre a história, as condições atuais e os novos caminhos para a produção de vídeo profissional. Embora seja uma tendência global, procurei focar mais na realidade do nosso país. No exterior, características  como maior avanço tecnológico, maturidade do mercado e métodos diferentes de produção, adiantaram mais esse processo. Mas ele está em andamento por aqui, seguindo as tendências de globalização.

Equipamentos... sempre os equipamentos! Sem dúvida eles são sempre necessários e nunca suficientes. Mas pelo menos hoje, nesse post, não vou tratar de todos eles. O assunto é muito vasto e falaremos deles ao longo dos próximos textos. Nesse último capítulo quero focar na câmera de vídeo. Ela que é a nossa colher de pedreiro, nosso serrote e formão, nossa forja. Somos, tal qual o mestre-de-obras, o carpinteiro e o ferreiro, artífices que moldam os materiais para criarem suas obras. Nossa matéria prima  é a luz e nossa ferramenta a câmera. Não existe produtor - aqui pensado no sentido do profissional multitarefa que além da direção de fotografia administra sua própria empresa – que trabalhe sem a câmera. Pelo menos uma já é suficiente.

Lembram onde falamos da terceirização e da parceria? Nossa câmera é a mulher amada, com quem estabelecemos uma relação de profundo conhecimento e intimidade. Não acredito em produtoras onde não haja pelo menos uma câmera. Não precisa ser a melhor, mas deve estar lá. Pelo menos para experimentar, testar novas idéias, atuar na pré-produção. Nos ajudar a ver. As demais, nesses tempos de mudanças rápidas, podem ser alugadas, emprestadas ou objeto de outras parcerias.

Em 2011 falamos aqui no blog sobre diversas câmeras. Foi uma série com cinco vídeos. Cobrimos quase todos os modelos. Do cinema digital ao evento social. Acho que falamos pouco. O assunto das ilhas de edição e dos seus softwares tomou muito tempo. Não era nossa idéia falar tanto a respeito. Mas foi necessário, ao percebermos a lacuna de informações sobre o tema. Gosto da fotografia. Sou apaixonado por ela e modestamente acho que é o que faço de melhor. A atividade onde coloco mais meu coração. O resto, são os ossos do ofício.

Sendo a câmera nossa ferramenta principal, independente de especializações e de nichos de mercado, é nela que devemos colocar o foco agora. Em todas essas mudanças que ocorrerão, ela está tendo o papel principal.  Exceto aos fotógrafos, que eventualmente produzirão filmes, indico as DSLR. Mais especificamente a nova Canon 5D MKIII, se quiserem minha opinião. E para os demais que se expressarão mais pelo vídeo, aconselho as câmeras tradicionais.

A principal mudança de cenário, na produção profissional de vídeo, é a convergência. Ou, definindo melhor, a sinergia entre as diversas mídias. A televisão migrou para o digital. O cinema resistiu até onde pode, mas se rendeu a mudança. A alta definição mudou o olhar dos espectadores, levando a qualidade do cinema para dentro de suas salas. A possibilidade dos 30 ou 60 frames por segundo, nos painéis de LED ou LCD, tornou as cenas de ação mais fluídas e naturais. Melhores até do que quando exibidas nas salas de cinema.

Os diretores e estúdios perceberam isso. Depois de mais de um século defendendo os 24 quadros por segundo, agora querem 30, 48 até 60 frames por segundo. Eles buscam, quem diria, uma experiência televisiva no escurinho do cinema. A televisão, por sua vez, sempre flertou com a telona. Daí, entre uma pipoca e outra, o pedido de casamento foi apenas uma questão de tempo. E provavelmente serão felizes para sempre.

Mas essa história de amor tem contornos de dramalhão mexicano. Na verdade, um triângulo amoroso, já que a internet, amiga íntima do casal, não quer ficar de fora. Então se trata de um filme adulto, pois Seu Cinema e Dona TV também desejam ardentemente a senhorita web. Esta, uma garota precoce, já tem alta definição e trinta quadros. E olhe que progressivos! Muito em breve poderá ter 60 e definição 2K. Não foi sem razão que seu mais novo filho, o iPad 3, tenha nascido forte e saudável com 2048 x 1536 pixel de resolução de tela.

Para quem ainda tem dúvidas que a web se torará em alguns anos o maior mercado comprador de vídeo, não custa relembrar o caso da fabricante de automóveis alemã BMW. Entre 2001 e 2003 investiu US$ 35 milhões em oito filmes de curta duração para seu site. Todos com o astro Clive Owven, tendo como atriz coadjuvante a bela BMW Z4, atuando sob a régia de diretores consagrados e uma produção mais sofisticada e cuidada do que muitos filmes de longa metragem. Somente no primeiro ano de exibição os quatro primeiros filmes alavancaram as vendas da montadora em mais de 12%.

O mercado, escandalizado, começou a prestar atenção ao formato. Os filmes, atuando como vt’s de propaganda, acabaram tendo uma vida mais longa do que o esperado. Depois dez anos de exibição e mais de 100 milhões de visualizações, continuam a fazer sucesso entre os internautas. Isso convenceu muitas empresas, em várias áreas de negócios, que produzir com qualidade para a web é tem um excelente custo-benefício. Aqui no Brasil já se fala bastante no assunto.

Os cinco últimos parágrafos tem um denominador comum que também sintetiza toda essa nossa conversa sobre mudanças e desafios:  Qualidade de captação.
Parecem um mantra mágico que está mexendo com as cabeças que pensam e comandam os mercados de meios multimídia. O casamento que você perdeu, o comercial que você não filmou, a produção para uma série de TV ou longa metragem, captada em sua cidade, por uma produtora que veio de fora e que fez você ficar de longe observando, todas utilizaram câmeras com lentes intercambiáveis  e sensor de grande formato. Essa é a mudança.

Então pode ir se despedindo de sua velha companheira de lente fixa e sensor minúsculo. Arrume um lugar de honra para ela, na estante atrás da sua mesa de trabalho e corra atrás do prejuízo. Ou melhor, do lucro. Mesmo as recentes NX5, HPX 1700, Z7 e demais câmeras de lente fixa acabaram de ficar obsoletas. Acabaram? Acabarão? Será que foi erro de gramática? Quando? Daqui a dois anos? Não. Já estão ultrapassadas.

Porque? Simples: Os produtores, realizadores, diretores, agências e clientes não querem mais as imagens pasteurizadas, semelhantes e chapadas produzidas pelas lentes fixas. Lembra do namoro do Seu Cinema e da Dona TV? Para garantir a longevidade do casamento prometeram deixar o que não era importante para segundo plano, bem fora do foco principal, prometendo um ao outro dar importância apenas aos assuntos em primeiro plano.  E também juraram não terem assuntos obscuros ou super exporem suas imagens. Além disso acharam melhor viver a vida somente em cores vibrantes e bem definidas.

Brincadeiras à parte, já vão em boa hora essas imagens sempre iguais e sem definição de planos. Os vermelhos saturados e os verdes tingidos de azul. Mesmo a menor câmera de bolso hoje, já conta com a possibilidade da troca de lentes. Os formatos Four Thirds e Micro Four Thirds, este último criado pela Panasonic e pela Olympus, já ganham adeptos de peso como a Leica. Todos esses fabricantes têm modelos compactos, uma grande variedade de lentes e uma qualidade excepcional. É uma evolução, ou melhor uma mudança de conceito, que vem acompanhando a migração dos meios analógicos para o formato digital.

Em um primeiro momento digitaliza-se. Para criar mercado, simplifica-se. E para atrair o consumidor reduz-se o preço. Em seguida vem a sofisticação, que tem a ver com o desejo, que por sua vez retroalimenta o consumo. Os CD substituiu o vinil. Hoje ele retorna como produto de consumo de alto padrão, com foco na exclusividade e principalmente na qualidade sonora. O DVD sucedeu o VHS e popularizou o cinema digital. Hoje, o Bluray investe na qualidade de imagem como propulsor de vendas.

As câmeras e filmadoras digitais, essas sim mataram o processo analógico em vídeo e vão tirar quase todo o espaço da película. Esta,  terá uma existência semelhante ao vinil: um nicho para os puristas. E agora entram na fase final do processo. Depois conquistarem o mercado consumidor pela praticidade, redução de tamanho e peso e integração a outros aparelhos como o celular, partem para a consolidação da qualidade da imagem.

E não devemos confundir aqui resolução, que é expressa em megapixel, e diz respeito ao tamanho, com a nitidez, que destaca a qualidade. Hoje existem câmeras, até mesmo para celular que possuem 40 megapixel de resolução. Uma grande bobagem criada para estimular o consumo. Além dos 23 megapixel, o olho humano não percebe a diferença de resolução. Mas mesmo uma imagem com astronômicos 40 megapixel não engana o olho humano. Se estiver fora de foco, com aberrações cromáticas e distorções de lente o tamanho não corrige os defeitos, pelo contrário, faz acentuar. E nitidez é a palavra chave nessa mudança de paradigma da captação de vídeos, principalmente para a televisão e a internet, já que o cinema sempre usou lentes e sensores de qualidade.

Então o que temos até agora? Convergência de mídias e formatos, busca pela qualidade ótica e estética das imagens, retorno à fotografia (cinema, vídeo e fotos) com alta qualidade técnica e finalmente redução de custos. Eu já havia citado redução de custos nesses textos? Acho que não. Mas proponho a troca de equipamentos mais simples por outros mais sofisticados, onde entra a redução de custos?

A resposta é simples: Como a corda sempre se rompe do lado mais fraco, a redução beneficia os fabricantes de equipamentos. Esses caras muito espertos, já sacaram isso tudo que falamos a algum tempo atrás. Afinal, o que foi aquilo com a Sony HVR Z7U? Do nada surge uma câmera de baixo custo com lentes intercambiáveis. Mesmo que até agora, quando ela começa o fim de seu ciclo no mercado, ainda não tenhamos visto as lentes opcionais para ela.

A Sony estava testando o mercado. A questão era simples e a RED CINEMA entendeu isso em 2007.  O foco, o nicho, é a fabricação do corpo, do hardware de aquisição, processamento e armazenamento de imagens. Lentes são caras. São uma tecnologia a parte. Coisa que, sem preconceitos ou puxa-saquismo, só alemão sabe fazer bem. Japonês está quase lá, mas ainda falta um tiquinho ! Com essa estratégia, os fabricantes puderam focar na tecnologia embarcada e reduzir muito os custos de fabricação.

Além de simplificar e diminuir o tempo de projeto dos modelos, já que dividem com os fornecedores de lentes essas pesquisas e desenvolvimento. Daqui por diante, os principais lançamentos para o mercado de televisão e cinema de baixo custo, estarão  quase todos focados em modelos de lentes intercambiáveis e com sensores de imagem 35 ou Super35mm. Só por uma questão de curiosidade técnica, podemos exemplificar citando novamente o modelo Sony Z7.

O modelo, que tem preço sugerido de US$ 6.850,00 com lente inclusa, poderia ser vendido por cerca de R$ 1.500,00 sem lentes, pois a ótica padrão que vem nela, da renomada Zeiss, custa para a Sony, o dobro do valor de fabricação da câmera. Como dizia Mané Garrincha, o problema foi não ter combinado ganhar o jogo com o inimigo. Os fabricantes de lentes não se animaram a produzir modelos com um bocal proprietário da Sony e que só serviria na Z7.

Preferem investir em lentes com montagem Canon, Nikon e principalmente, no caso de lentes para cinema, para o padrão PL da ARRI, que é também utilizado por diversos outros fabricantes de câmeras a mais de 30 anos. Por esse motivo modelos como RED ONE, EPIC, SCARLET  da RED Cinema, a nova Sony PMW-F3 e a recém lançada Canon C300 foram projetados para lentes PL.  E a Panasonic, mesmo lançando a AG-AF100 com montagem Micro Four Thirds, do qual possui a patente junto com a Olympus,  liberou o licenciamento do formato para fabricantes de adaptadores, e na estréia do modelo, já haviam no mercado alguns kits de conversão do bocal MFT para o padrão PL. E mesmo o sistema Micro Four Thirds conta com uma ampla oferta de lentes da própria Panasonic e de fabricantes como Olympus, Leica e Sigma.

A tática da Sony, da Panasonic e da Canon lançando modelos com sensor de grande formato não foi apenas uma estratégia para barrar o sucesso das DSLR como a 5DMKII da própria Canon. A idéia era refinar a captura de imagens e ao mesmo tempo se beneficiar do uso das lentes de cinema  e também permitir o uso de lentes fotográficas padrão 35mm, que oferecem um foco preciso, profundidade de campo muito seletiva e uma enorme oferta de modelos em várias faixas de custo.

Essas câmeras também aceitam a maioria dos periféricos e acessórios aos quais os profissionais de cinema já estão familiarizados, como para-sois, suportes de filtros, sistemas de rack para montagem de acessórios, além de monitores, sistemas de follow-focus, baterias profissionais e gravadores externos. Isso torna mais fácil a locação desses periféricos, que sendo universais, são facilmente encontrados em locadoras de equipamentos em qualquer parte do mudo. Sendo o sistema quase todo modular, o produtor filmando com baixo orçamento, pode adquirir apenas o essencial e locar os itens mais caros apenas quando necessário.

E qual modelo oferece hoje o melhor custo-benefício e qual seria o kit básico para iniciar essa migração de equipamentos? Basicamente, existem hoje, dentro da faixa de US$ 5.000,00 até US$ 25.000,00, quatro modelos que atendem a essas novas características. Felizmente são de fabricantes diferentes, para agradar a quem  tem preferência por marcas. E também de custos situados em três patamares de orçamentos.  Evidentemente existem diversos outros modelos no mercado. Porém com preços acima dos US$ 100.000,00 podendo mesmo chegar facilmente a casa do meio milhão de dólares. Mas são para outro segmento do mercado e aqui no blog prefiro falar das possibilidades acessíveis aos pequenos e médios produtores.

Todos tem a opção de serem adquiridos com ou sem lentes. Estas podem variar entre modelos para fotografia com custo mais modesto (a partir de US$ 200,00), indo até as lentes compact-primes, desenvolvidas para esse mercado iniciante com preços até US$ 7.000,00 por lente. Muitos se assustarão com esse tipo de valor por apenas uma lente. No caso de algumas câmeras, esse custo é maior que o preço de aquisição da mesma. Mas se considerando que algumas lentes prime custam até US$ 300 mil, podemos considerar uma lente na casa dos US$ 5.000,00 como sendo de custo razoável para a utilidade e qualidade que proporcionam.

Veja a seguir as principais características dos quatro modelos, já disponíveis oficialmente no Brasil, que inclusive tem recebido atenção especial dos revendedores oficiais das marcas, através da promoção de eventos de apresentação e oferta de preços e condições de pagamento diferenciadas.

Parâmetro
Panasonic AG-AF100
Sony NEX-FS100
Sony PMWF3L
Canon C300
Tamanho sensor
4/3 18 x 10 mm
MOS 
Super 35mm
23.6 x 13.3mm CMOS
Super 35mm
23.6 x 13.3mm CMOS
Super 35mm
23.3 x 13.8mm
CMOS
Fator de corte
2.0
1.6
1.6
1.6
Esp. de cor
Mídia interna
4:2:0
4:2:0
4:2:0
4:2:2
8 bits
Esp. cor
Mídia externa
4:2:2
8 bits
4:2:2
8 bits
4:2:2/4:4:4
10 bits
4:2:2
8 bits
Tipo de mídia
Interna x qt
2 x SDHC, SDXC
 1 x SDHC, SDXC
2 x SXS
2 x CF Card
Saídas A/V
HDMI/SDI
HDMI
HDMI/Dual SDI
HDMI/ SDI
Ergonomia e praticidade
Boa
Ruim (sem ocular e LCD mal posicionado)
Boa
Muito Boa
Preço
US$ 4.995,00
US$ 5.850,00
US$ 16.800,00
US$15.999,00
Acessórios
A/C e bateria
Mic Interno
A/C e bateria
Mic Externo
Sem A/C
sem bateria
A/C e bateria


Esse foi o último artigo dessa série.  Agradeço a leitura e prometo para breve uma análise mais detalhada das câmeras citadas, seus acessórios e a relação custo-benefício de cada uma. Para ler as duas primeiras partes desse post, use os links a seguir.


Parte 1
Parte 2

Grande abraço a todos!

Marcelo Ruiz

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Marcelo Ruiz

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