quarta-feira, 23 de maio de 2012

Lentes: nem sempre 6 é igual a meia dúzia...



Olhando assim de perto a simplicidade e o tamanho da lente LUMIX G 14mm/1:2,5 um fotógrafo, que ainda não tenha trabalhado com ela, não vai imaginar a qualidade da imagem que ela proporciona.  Aliás, já não resistindo ao trocadilho, em se tratando de lentes, nem sempre o maior tamanho proporciona o maior prazer.  Putz! Eu sei, meu leitor, foi infame esse.

Mas a verdade é que o assunto lentes, que a partir desse post começo a tratar mais a miúdo aqui no blog, é um tema fascinante e inesgotável. E também uma jornada repleta de surpresas e armadilhas. Novamente observando a imagem acima com a  Lumix G14 e a Lumix G Vario 14-42 ao lado dela, poderíamos dizer que um leigo em fotografia tenderia a achar que a lente maior  fosse a melhor ou ainda que a 14-42 pudesse substituir a 14 prime, já que sua distância focal mínima é a mesma da G14. 


Novamente vou bater na mesma tecla: muitos cinegrafistas ainda estão acostumados a praticidade das lentes zoom padronizadas.  Fico triste quando percebo um câmera colocando o equipamento todo no modo automático, inclusive íris e foco da lente, se resignando apenas a operar a alavanca de zoom. E vejo isso acontecer não apenas com novatos, que teriam a desculpa de estarem aprendendo. Profissionais com tempo suficiente estrada para já terem aprendido os segredos da fotografia, também fazem isso, muitas vezes apenas por comodidade.

 Mas as coisas estão mudando, aliás  estão sempre em movimento. As novas câmeras com lentes intercambiáveis vão forçar os cinegrafistas a voltar ao banco da velha escola. Não estou falando de câmeras como a 5DMKIII que ainda oferecem a possibilidade de controle automático total, caso sejam usadas lentes compatíveis. Mas do uso de lentes diferentes das originais e completamente manuais. Isso é válido também para as Sony NEX-F100 e PMW-F3, a Canon C300, a Panasonic AG-AF100 e modelos mais sofisticados como as RED ONE e Scarlet.

É verdade que algumas delas possuem lentes compatíveis com os controles automáticos da câmera, mas as verdadeiras preciosidades, as lentes que realmente fazem a diferença, não são do mesmo fabricante e não possuem chips internos. Todo o trabalho de focagem, distância focal e abertura de diafragma deve ser pensado e executado pelo cinegrafista. E para usar a lente certa para a cena desejada, também não basta apenas saber operar. Tem que conhecer um pouco das características das principais lentes para emprega-las de forma correta, tirando o máximo proveito de suas qualidades. Isso é a mágica da fotografia artística voltando.

Aquela sopra de letrinhas que toda lente traz impressa na frente, junto com o nome do fabricante e até mesmo o número de série, não estão ali só para enfeitar. Muitas vezes visam impressionar o comprador incauto. Não que os números estejam errados, mas a lente em si, apesar das características parecerem ótimas, tem problemas graves de aberração, distorção e muitas vezes até de focagem (ou nitidez). É o caso das lentes mais baratas de fabricantes alternativos. Não vou citar nomes.

Mas duas regras são bem válidas (com exceções é claro): se é pesada e cara é boa. Vamos começar então na prática. Veja o vídeo abaixo. Foram utilizadas duas lentes Panasonic Lumix que, além de serem montadas nas câmeras fotográficas da marca, podem ser usadas nativamente na nova filmadora AG-AF100, dá qual já falamos aqui no blog. Observe a diferença entre as duas tomadas e tente interpretar os dados das lentes que coloquei junto com o filme.




Descobriu o que causou a diferença, pelo menos em uma leitura inicial? Sim. A abertura da lente  14mm prime é 2 f stops maior que  a 14-42. Portanto sem alterar o ISO ou shutter speed  obtemos uma imagem mais clara e com menos ruído.  Mas não se trata apenas disso. Aumentando um frame do vídeo 400% vemos que a definição também mudou dramaticamente.



A lente 14mm prime consegue resolver melhor os detalhes finos. Basta observar o relógio de pulso. O número 30 no aro externo desapareceu dando lugar a um borrão branco no vídeo captado com a lente 14-42. Lembrando que os objetos, a câmera e a distancia focal nas duas tomadas foram as mesmas. 



Com a abertura menor da lente 14-42, o chaveiro com um boneco vermelho e amarelo ao fundo acabou ficando mais em foco. Ou seja, a profundidade de campo da lente 14 mm prime é bem menor e portanto mais precisa. Evidentemente isso pode ser uma vantagem ou desvantagem. Tudo depende da intenção do diretor e do cinegrafista ao elaborar uma tomada.

Mas tudo isso que falamos agora, e esse tipo de teste rápido e não científico são sempre afirmações subjetivas, já que a claridade absoluta e a resolução de uma lente podem varia de observador para observador, sendo influenciada inclusive pela acuidade visual de cada um deles. Para obter uma avaliação isenta de critérios de subjetividade, os fabricantes de equipamentos óticos criaram a tabela MTF (Modulation Transfer Function) que representa em um gráfico as qualidades de uma lente analisando a modulação (ou transformação) que a lente faz em cada fração da luz que passa por ela.

Vejamos o que dizem as duas tabelas das lentes mostradas nesse artigo:



As linhas azuis e verdes na lente prime 14mm indicam uma maior consistência de resolução e contraste do centro até quase a borda externa da lente (um círculo imaginário de 12 mm). Na parte direita da figura acima vemos o desempenho da lente 14-42 em sua distância focal mínima (14mm) correspondente a lente prime 14mm. A linha verde pontilhada representa a resolução meridional alta da lente. A resolução meridional alta representa a capacidade de resolução de imagem da lente (nitidez da imagem). Na lente 14-42mm, de acordo com a tabela da Panasonic, a resolução cai constantemente a partir do centro da lente. a partir dos 12mm de um círculo imaginário no centro da lente, a resolução fica abaixo dos 60% MTF, que seria o limite da faixa aceitável de resolução. Por isso o relógio de pulso aparece sem nitidez. Note que o relógio, no frame não ampliado, está localizado ligeiramente fora do centro da imagem, mais para o lado direito e a tabela da lente nos diz que tudo que esteja fora do centro exato da lente, gradativamente estar menos nítido em direção as bordas da lente e por conseguinte, do quadro da imagem capturada pelo CMOS da câmera.


Se analisarmos o preço das duas lentes, veremos que a lente 14mm prime, melhor (ou mais nítida,) esta custando hoje cerca de US$ 303,00 e a 14-42mm trs vezes menos, US$ 103,00. O logico, levando em conta os custos de fabricação, seria  a lente 14-42mm custar mais, pois tem mais elementos mecânicos internos, além de mais lentes (12 elementos em 9 grupos) do que a 14mm prime que possui menos partes mecânicas e menos lentes (6 elementos em 5 grupos).

Mas no mundo das lentes as coisas não funcionam dessa maneira. As lentes melhores, mesmo sendo mais simples demoram mais tempo para serem fabricadas, pois a parte mais difícil é o polimento e ajuste das lentes. Então os custos ficam mais elevados. Existem lentes da Nikon que demoram quase um ano para serem fabricadas, enquanto outras são montadas as centenas por dia. Claro que o custo final não poderia ser igual.

Nos próximos artigos sobre o tema lentes, vou falar sobre alguns desses modelos especiais que apesar de muito caros, valem cada centavo investido. Mais uma vez é bom lembrar: O nosso produto final é a boa imagem somado ao conteúdo. Para haver imagem é preciso luz. E para captar bem essa luz uma boa lente é fundamental. Não adianta apenas ter uma boa câmera, se ela não tem uma boa lente. E não adianta querer logo filmar tudo para acabar rápido.

A primeira regra é observar por um bom tempo o assunto que você irá filmar. Depois gastar bastante tempo iluminando de forma perfeita. Antes de gravar, faça testes com diversas lentes e só depois aperte o botão REC.

Grande abraço a todos!

Marcelo Ruiz 









Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por sua participação! Asim que eu puder, vou responder! Volte sempre!

Marcelo Ruiz

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.