domingo, 12 de fevereiro de 2012

A guerra dos pixels: cinema e televisão em busca da perfeição da imagem em movimento.



Em mais de um século de história, o cinema e os demais meios de comunicação sempre competiram pela busca do expectador. Diversas teorias, ao longo de décadas, previram a morte de diversos tipos de mídia. Nenhuma delas, no entanto, acertaram totalmente suas previsões. O cinema não acabou com os jornais impressos e nem impediu o surgimento do rádio ou da própria televisão, que por sua vez não acabou com o cinema e nem diminuiu a influência e popularidade do rádio.

A internet não vai acabar com a televisão e nem com o cinema. E já se duvida da previsão que os tablets e e-books irão acabar com os jornais impressos. Na verdade, a melhor teoria vigente é a que fala na convivência pacífica, através da convergência, onde o melhor de cada meio contribui para seu próprio crescimento e para o desenvolvimento de seus congêneres, levando inclusive a criação de modelos de negócios híbridos.

Em relação ao cinema, este está experimentando, a menos de uma década, um período de profundas modificações em sua estrutura. Assim como a televisão, que desde a popularização da internet e da tecnologia digital, tenta  se reinventar para não perder espaço no império da indústria da informação. E o que se nota, não é mais a competição predatória, ocorrida um competidor tem que, necessariamente, aniquilar o outro. A competitividade  se tornou mais sustentável, com os adversários se transformando em parceiros e buscando um resultado comum: a conquista do consumidor de informações através de uma imersão híbrida.

É bem verdade que a televisão tirou público do cinema durante algumas décadas. Mas hoje, o cinema vai muito bem, obrigado. Apesar do discurso saudosista, dos que lembram os anos dourados, onde em cada bairro das brandes cidades haviam pelo menos um, senão mais cinemas e onde cada cidade do interior tinha sua modesta sala de projeções,  o número de salas vem aumentando em todo o mundo. O que se vê agora é uma certa concentração física, onde um bairro pode ter perdido duas ou três salas, mas o novo shopping center inaugurado, muitas vezes no mesmo lugar, conta com seis ou mais cinemas, exibindo uma quantidade bem maior de filmes. Pelo menos essa é a realidade do cinema  brasileiro.

Infelizmente o número de filmes nacionais exibidos nessas salas é menor que em tempos passados, com grande predominância das produções americanas, hoje quase hegemonia. Mas falaremos disso um pouco a frente.  O cinema, ao migrar para os espaços coletivos de consumo, resolveu diversos problemas de logística. Ele se beneficia da grande quantidade de pessoas circulando nesses locais, que por sua vez, se valem do poder de atração da sétima arte para atrair público para as suas lojas e praças de alimentação.

O grande trunfo do cinema, em relação a televisão, foi durante mais de 60 anos, a qualidade superior de imagem e som e a tela grande. Até 1990 essa era uma verdade absoluta. O aparecimento das câmeras fotográficas digitais a partir desse período, começou a mudar o jogo. A popularização dos computadores pessoais e o surgimento da internet também foram fatores decisivos, popularizando a tecnologia e permitindo a integração de todo o processo de aquisição de imagens, filmes e sons diretamente no computador.

Em meados dos anos noventa, ninguém afirmava com certeza que a tecnologia digital de imagens fosse ameaçar em curto prazo a qualidade do cinema. Diversos diretores consagrados afirmavam então, que jamais trocariam a película por uma câmera de vídeo digital. A maioria deles hoje já se declaram apaixonados pela nova tecnologia. E não se trata de uma mudança por modismo ou falta de personalidade. O cinema digital acabou definitivamente com a película. O maior gigante da fotografia, a Kodak, cometeu o mesmo erro histórico que a Olivetti, um dos maiores fabricantes de máquinas de escrever: não acreditou que seus produtos iriam ficar obsoletos.

Os diretores, que durante décadas usaram a película, simplesmente se renderam a um fato incontestável: a qualidade do vídeo digital superou, em termos de definição e fluidez de imagens, o velho negativo. E esses velhos profissionais, olhos treinados por anos atrás de uma câmera, sabem reconhecer o que é qualidade quando se trata de fotografia e de imagens em movimento. E exatamente por isso entram agora em competição com a televisão e inspiram o título desse artigo.

Diretores com James Cameron (Avatar) e Peter Jackson (Senhor dos Anéis) se uniram a fabricantes de equipamentos de projeção como a Barco e a Sony, tendo o apoio dos grandes estúdios de cinema e as distribuidoras, para implementar ,a partir de 2012, as primeiras produções no formato 4K em 3D e com taxas de frame muito superiores aos 24 quadros por segundo, tradicionais do cinema de película. Muito em breve filmar em 24 quadros será coisa do passado.

O motivo não é simplesmente vaidade ou preciosismo técnico. A indústria do cinema anda preocupada com a competição da televisão. O motivo é simples: hoje a maioria dos monitores digitais e os tocadores de Bluray são capazes de exibir imagens a 60 quadros por segundo. Os filmes de ação – e hoje praticamente todos são – sofrem, principalmente os exibidos em 3D, com efeitos indesejáveis de pulos e imagens borradas nas cenas mais movimentadas. E esses mesmos filmes exibidos nas salas de cinema a 24 fps, ficam disponíveis em pouco tempo para exibição em HD a 60 fps na sala da sua casa.

O cinema não quer perder público para a televisão, mas também necessita que seu produto tenha o que se chama de cauda longa, ou seja, depois da exibição na tela grande, posa ser comercializado na forma de aluguel para cinema doméstico, transmissão por cabo e finalmente televisão aberta. O mercado de vídeo doméstico e de televisão aberta ou  fechada, também vai se beneficiar do formato UHD (Ultra Alta Definição), com que serão produzidos os filmes a partir de agora, para criar atração no consumidor.

A indústria de equipamentos de vídeo doméstico também tem muito a ganhar.  Não é de se estranhar a quantidade de lançamentos de televisores 4K que as feiras de informática desse ano estão exibindo. Depois da febre dos monitores  digitais, do DVD e do Bluray, é preciso alavancar vendas em declínio. A rede estatal de televisão aberta japonesa NHK já iniciou os testes para em 2016 iniciar as transmissões de tv em formato 4K. Isso vai gerar uma demanda por novos equipamentos, tanto profissionais como domésticos. E assim a economia continua a caminhar.

Percebemos então que a guerra de pixels não pretende mostrar a superioridade de uma ou outra mídia. Trata-se mais de uma convergência entre cinema e televisão na busca da qualidade visual que atrai o espectador. Steve Jobs sabia bem disso e sempre cuidou desse aspecto em seus produtos. Os monitores Apple, a tela do primeiro iPhone, a tela retina das novas versões do mesmo aparelho e do iPad II são exemplos disso. O mundo é multimídia e a comunicação predominantemente visual. A busca por qualidade de imagem se tornou quase uma obsessão.

E para quem acredita que o formato HD, que ainda está sendo implantado no sistema de televisão brasileiro, vai demorar muito tempo para ser substituído, pode cometer um erro igual ao da Kodak e outros que não acreditaram na velocidade de transformação das novas tecnologias. Isso porque as dores do parto já passaram. A principal mudança no cinema e na televisão foi a transição do analógico para o digital.

No cinema essa mudança aconteceu gradualmente a partir de 2007 com o lançamento das primeiras câmeras RED ONE de cinema digital. Nos anos seguintes, fabricantes de câmeras de película como a ARRI e a PANAVISION substituíram seus modelos de película por equipamentos digitais. Na televisão a mudança já ocorre há quase uma década, mas não é homogênea. Começou no Japão e Europa e agora está chegando aos países em desenvolvimento.

Foi uma mudança radical, com alto grau de investimento, onde os equipamentos analógicos como o formato Betacam da Sony e os diversos componentes dos sistemas de transmissão tiveram que ser totalmente substituídos por similares digitais.  Essa foi a maior dificuldade. Mas a partir da digitalização dos canais de televisão aberta e fechada, e da própria produção de cinema, muitas das novas tecnologias como o formato 4K não dependerão tanto da troca radical de componentes de produção e exibição. Muitas vezes uma simples troca de software ou instalação de um hardware adicional resolverá o problema, tornando mais fácil, rápida e economicamente viável a migração entre novos formatos.

Falando do marcado brasileiro, com a recentes mudanças nas leis para as televisões pagas e a provável mudança das regras da televisão aberta, que deve seguir o mesmo modelo, em termos de reserva de mercado e regras rígidas para a exibição obrigatória de conteúdo nacional, é necessário que as produtoras nacionais, principalmente as pequenas e médias empresas, que receberão tratamento prioritário e diferenciado  pelas novas regras, estejam aptas a acompanhar essas novas tecnologias e poder fornecer a grande quantidade de conteúdo nacional de qualidade que o mercado demandará nos próximos anos.

Nesse ponto, todas esbarram em dificuldades técnicas e financeiras, ocasionadas por anos de desequilíbrio do mercado produtor e pela falta de apoio e fomento governamental. Em um mercado que, atualmente, privilegia apenas as grandes empresas e grupos econômicos, as regras precisam mudar para permitir o crescimento da produção nacional independente. O exemplo tem que ser dado pelo próprio governo, grande consumidor e contratador de produtos audiovisuais. A lei de licitações precisa mudar para evitar distorções e privilégios. Mas isso será tema da continuação desse artigo.

Grande abraço a todos!

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Marcelo Ruiz