domingo, 19 de janeiro de 2014

A Copa de 2014 e o mercado audiovisual: em que ponto chegamos,,,

Emissoras de TV trabalham na cobertura de jogo da Copa das Confederações, no Mineirão, Belo Horizonte
Imagem: Carolina Juliano/UOL

Venho alertando há muitos anos sobre os rumos que a produção de vídeo e cinema está trilhando no Brasil. E esse caminho tem nos levado cada vez mais perto do precipício. Mas sou voz única pregando no deserto.  Atitudes como mesquinhez, traição, falta de modéstia e humildade, egocentrismo e idolatria a certas figuras e práticas de mercado fizeram com que, mesmo após mais de 50 anos de existência da televisão no Brasil e quase um século de cinema, o mercado ainda engatinhe em termos de sustentabilidade e viabilidade de mercado.
Essa semana saiu uma matéria no site UOL COPA do grupo Folha sobre o fiasco dos negócios, envolvendo a cobertura da copa, entre televisões estrangeiras e as produtoras brasileiras. O texto na íntegra pode ser lido aqui nesse link. Mas gostaria de destacar alguns trechos pinçados na matéria e falar um pouco sobre eles. Os textos originais estão entre aspas e itálico:

“Emissoras de TV estrangeiras estão tendo que rever seus planos de transmissão da Copa do Mundo de 2014 no Brasil devido aos valores exorbitantes que estão sendo orçados por produtoras brasileiras...”


Existem aqui duas situações distintas. Essas mesmas produtoras, que estão tentando meter a faca nos gringos, são as que pagam diárias miseráveis a profissionais e fornecedores brasileiros, deixando de fora que não se submete a esse esquema de exploração e criando uma nova leva de aventureiros. Mas para atender ao padrão do mercado internacional, o esquema do baixo custo ( leia-se equipamento ruim e maus profissionais) não funciona. E nessa hora quem tem boa reputação e bons equipamentos dá o troco e tenta recuperar os prejuízos.

"A verdade é que muita gente viu na Copa uma oportunidade única de ganhar dinheiro e até de se aposentar, e essas empresas resolveram inflacionar o mercado", diz a fonte de uma das maiores produtoras do Rio de Janeiro. "O Brasil já é mais caro que o resto do mundo por conta dos nossos impostos...”.

Mas não é apenas quem está se sentindo prejudicado pela entrada de uma enxurrada de equipamentos medíocres, operados por profissionais idem, que quer recuperar o prejuízo. Realmente muitos pensaram que ima se aposentar com os “ganhos” da Copa 2014. E já que estamos falando de futebol, podemos citar a Lei de Gerson: O brasileiro gosta de levar vantagem em tudo certo?.

Embora possamos fazer uma ressalva quanto a questão da carga tributária. Existe toda uma cadeia nefasta de tributação, não apenas em nossa área, mas em todas as atividades comerciais e industriais que requerem equipamentos de ponta, geralmente importados e profissionais altamente qualificados. Está quase impossível se produzir no Brasil. Não é a toa que o nível de industrialização tenha regredido ao correspondente aos anos de 1950.

“O caso mais emblemático ... é o de um grande canal inglês, que foi um dos primeiros a fechar um pré-contrato para se estabelecer no Brasil, montar estúdio, trazer apresentadores e equipes para transmitir direto daqui. Há dias, o canal rescindiu contrato e diminuiu em 70% seu trabalho no Brasil. "Resolveram montar o estúdio na Inglaterra mesmo, pois só a montagem aqui custaria US$ 1 milhão. Pagaram a multa rescisória do contrato e agora vão apresentar de lá com alguns links (entrada ao vivo com jornalista) no Brasil, e ainda resolveram trazer equipamento e pessoal próprios...".

“Produtores nacionais informam que a transmissão da Copa no Brasil já teria os custos mais altos do que no resto do mundo porque a carga tributária é muito grande”.

Aqui novamente vemos o estrago que o tal “custo Brasil” tem feito nas empresas brasileiras.  A situação é tão grave, que mesmo um estrangeiro tentando contratar com uma moeda bem mais valorizada, ainda percebe os custos exageradamente altos. E essa situação exposta agora com a Copa de 2014 e que se repetirá com as Olimpíadas em 2016, cria uma armadilha. Não demora muito para as produtoras estrangeiras ligarem os pontos e perceberem que podem trazer o excesso de equipamentos e profissionais, que estão subutilizados em uma Europa e América do Norte em crise, para o Brasil. Basta “comprar” um testa de ferro brasileiro. Afinal existem milhares de produtoras nacionais de pequeno porte que estão praticamente fechadas.

“Na ocasião do sorteio da Copa, as fontes informaram que operadores de câmera que geralmente cobram diária de R$ 150 chegaram a pedir R$ 600, e como no nordeste brasileiro tem menos profissionais do que no sul e sudeste, até emissoras brasileiras tiveram que pagar mais caro para terem o serviço”.

Como eu citei antes, é a revanche, a vingança, o sentimento de recuperar o tempo perdido e sacanear com quem te avilta o tempo todo. Além do mais, é ridículo e imoral pagar R$ 150,00 de diária, que nunca é de seis horas como manda a lei, a um profissional qualificado.  O valor de R$ 450,00 seria hoje o preço justo.  Se todos fossem pagos nesse patamar em trabalhos normais, não veriam necessidade de inflacionar para R$ 600,00 agora, na hora da falta de oferta, para tentar tirar um extra. Mesmo porque o sentimento geral da classe é que, quando acabada a Copa, volta tudo ao que era e a exploração vai continuar.

“...uma emissora australiana, que previa a montagem de estúdio de transmissão no Rio de Janeiro, com quatro apresentadores e mais convidados. Isso custaria para eles, na Europa, por exemplo, US$ 200 mil. No Brasil pediram este valor apenas pela locação do imóvel onde seria montado o estúdio ... tiveram que mudar de planos”.

Uma coisa que as produtoras nacionais, que estão acharcando os gringos esqueceram, é que depois da Guerra do Golfo, onde imagens de baixíssima qualidade e áudio entrecortado, varreram o mundo com relatos ao vivo do conflito, enviados ao ar via telefones portáteis de satélite, dada a pouca ou nenhuma infraestrutura existente em Bagdá, as emissoras e telespectadores acabaram se acostumando com esse novo padrão. Anos mais tarde os vídeos exaustivamente colocados na web e a popularização do YouTube, acabaram por acostumar os olhos dos consumidores com esse padrão meio tosco.

E mesmo assim, passadas algumas décadas, a qualidade disponível hoje em vídeos gravados por smartfones e tablets melhorou muito, assim como a velocidade de banda disponível para upload desses vídeos. Então o que veremos na Copa de 2014, são equipes de, no máximo três pessoas, fazendo a cobertura local das televisões estrangeiras. Basta um repórter, um assistente e um produtor.  Nem cinegrafista e editor são mais necessários, visto que a maioria dos jornalistas se especializou em captar e editar vídeos em quartos de hotel ou nos próprios celulares a caminho da próxima locação.

"No Brasil cobra-se a mais, por exemplo, por um profissional que fala inglês, mas na Europa falar inglês é condição primeira para ser um profissional, não cobra-se por isso", diz um produtor que já trabalhou em cadeias televisivas na Europa e no Golfo Pérsico. "Tudo isso parece absurdo para quem vem de fora fazer televisão aqui".

Outra triste realidade do nosso mercado de cinema e vídeo. Apesar de lidarmos com tecnologias e conhecimento técnico predominantemente estrangeiro e em língua inglesa, a percentagem de profissionais que dominam o idioma é muito pequena. Eu mesmo já tive esse feedback e atribuo uma parte do sucesso desse blog a falta de conteúdo em língua portuguesa. Muitos leitores já me confirmaram isso. A coisa é tão absurda, que existe um mercado paralelo de tradutores vendendo cópias em língua portuguesa de manuais de equipamentos de vídeo e áudio.

 “A 150 dias do início da Copa do Mundo do Brasil não há praticamente contratos fechados entre produtoras brasileiras e emissoras estrangeiras. Nos próximos dias, quando a Fifa definir e distribuir as credenciais para os profissionais de imprensa, as emissoras terão que definir suas estratégias. Há um ano que as produtoras estão fazendo orçamentos para a Copa e já se observa uma queda nos valores pedidos no mercado”.

"Os estrangeiros simplesmente não pagam. Eles estão sacrificando a participação deles na cobertura do mundial devido aos preços praticados no Brasil".

Na verdade não vão sacrificar nada. Vão cobrir a Copa com imagens geadas por equipes locais reduzidas, produzir conteúdos mais elaborados em seus estúdios nos países de origem e quanto às partidas, a transmissão já seria única mesmo, que terá que ser comprada da FIFA. Depois de acabado o evento os gringos terão aprendido o caminho das pedras para as Olimpíadas de 2016 e se nada mudar por aqui, o que eu duvido, teremos um caso mais grave. A cobertura será feita por aqui por filiais “nacionalizadas” das grandes redes de televisão e produtoras estrangeiras. E assim vamos vivendo... afinal, isso aqui é Brasil.

Grande abraço!


Marcelo Ruiz

2 comentários:

  1. Bom dia Patrão! É o Cleber 07.

    Muito legal esse post pelo ponto de vista de um veículo de informação e o principal, por um grande profissional da área de produção como o Sr.
    Quanto aos estrangeiros, isso serve para eles verem como é difícil para se ter alguma coisa aqui no Brasil. Uma pena que País não é empresa, pois se fosse, ia ser uma grande resposta para a Sony que vive sacaneando fabricando modelos para cada continente. Graças a isso temos que comprar uma Sony modelo X seguido de N para nosso mercado se quisermos ter garantia aqui. Se não fosse isso daria para dar aquela burlada nos impostos. Mas maior sacanagem é o tanto de impostos que pagamos para se ter alguma coisa aqui. Estou vendo a hora que vão cobrar o ISAR ( Imposto Sobre o Ar que Respiramos ). Vai ser calculado sobre o peso, altura e idade do cidadão (risos...).
    É, brasileiro sofre! Essa copa é um fiasco desde que o Brasil foi escolhido...

    Valeu amigão!

    Estou bem ruim de saúde mas com esperança sempre.

    Grande abraço!

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    Respostas
    1. Cleber,

      O que houve contigo cara? Espero que sare logo amigão!

      Grande abraço e muita saúde!

      Marcelo Ruiz

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Marcelo Ruiz

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